Este é o Blog oficial da Cia. Corpos Nômades, que foi criado em 2006. Funcionará novamente como nossa Sala de Ensaio Virtual. Como foi com o espetáculo "O Barulho Indiscreto da Chuva", onde as respostas poéticas inspiraram as coreodramaturgrafias. Agora com o HOSTEL PROJECT - novamente as postagens e os comentários servirão para a criação do novo espetáculo. Este projeto conta com o XIV Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo e a Cia. Corpos Nômades é patrocinada pela PETROBRAS
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6 comentários:
Como poderia ter alguém se tinha prazer em tirar tatu e colocar sob os móveis das casas quando ninguém estava olhando. Se quando passava fio dental adorava cheirar e sentir aquele cheiro de comida podre armazenada por dias entre os dentes. Se esperava limpar os ouvidos só para ver aquela cera amarela e fedida nas pontas do cotonete e quando limpava as unhas cheirava e adorava aquela sujeira que saia do seu dedão do pé. Transava e deixava a porra seca na calcinha, que depois se misturava com seu corrimento e passava o dia inteiro sentindo aquele cheiro que a fascinava, excitava e era como se gozasse novamente. Como poderia ter alguém se o que mais queria era ser aceita, agradar.... Como?
Quando eu fiz 14 anos, minha mãe entrou no meu quarto e disse que eu ia me mudar. Mas porquê? - eu disse - gosto de morar aqui! É que você já está ficando velha, está na hora de se casar! CASAR?! Com quem? Não!! Eu quero ficar aqui com vocês! Duas horas depois, o doutor Vilar estava na sala da minha casa. Não! Me escondi no armário, onde até então ninguem conseguia me achar. Mas meu pai me encontrou e me arrastou porta a fora. Foi uma gritaria. Eu chorava e esperneava. Meu pai gritava e me arrastava. Eu não acreditava que meus pais estavam fazendo aquilo comigo. Por quê?! Olhei para a minha mãe. Me ajuda, mãe! - eu pensei. Mas ela desviou o olhar. Então, o doutor Vilar passou a mão pelo meu rosto, aquela mão áspera, e beijou o meu rosto, aquele álito quente, febril de desejo. Tive muito medo! Ele me agarrou pela mão,e me levou embora pra sempre, embora da minha vida, embora de mim, pra sempre. Por quê?!
Um retalho
Sobra de algo que foi feito
E que já se foi.
Uma rebarba
Sobra de algo feito que continua ali.
(Era afixionado por rebarbas. Limava-as todas.
Sofreu depois por tê-las retirado até mesmo de suas memórias)
Esqueceram de contar-lhe estórias.
Ensinaram-lhe cedo que haveria sempre territórios proibidos. Aprendera a agir como quem não sente falta de tudo aquilo que lhe fora roubado. Amarraram uma corda em seu pescoço. Ensinaram-lhe a sufocar o “quem”. Tecido de estrelas que toca tudo o que existe. A mão puxaria a corda toda vez que se aproximasse do que julgavam proibido. Nascera no tempo da experiência negada. Quase-quase-mudez-quase. Frase não pronunciada. Vivera com pessoas que lhe negaram todas as experiências. Era toda branca em tudo. No início não houve palavras. Negaram-lhe as experiências que lhe dariam o status de “humana”. Dias inteiros sendo levada de um lugar para o outro. Fora obrigada a esconder a falta. Dias inteiros sem ter com quem viver. Sentia saudade do que não lhe era permitido viver. Ia para casa. Era proibida de sentir saudade. Ia para a escola. Não sabia o que ser humano significava. Ia para o trabalho. Em melancolia a insatisfação das respostas impostas com o vagar das horas. Ia para o hospital. Colocaram-lhe os costumes antes de ela perguntar. Sem palavras: era uma forma censurada. Fora ensinada a manter os olhos baixos. Haviam-lhe roubado o mundo. Fora ensinada a sentir medo. Esqueceram que havia alguém ali. Reprovavam-na quando mostrava-se em medo. Nunca entraria no mundo. Fora ensinada a passar despercebida.
Era uma mulher beeeem comprida. Começa pelas pontas dos pés, bem esticadas, com os dedos bem juntinhos, apertados. Subia pela perna, a panturrilha desenhada no corpo, bem definida, com pelinhos bem fininhos e loiros. O joelho, não adianta, é sempre feio, por isso a gente pula. O Quadril era largo, ou a cintura era estreita...não sei. Tinha o umbigo bem fundo, não dava pra ver onde acabava. Nunca enfiou o dedo lá, com medo de que nunca voltasse.
Dava pra ver as costelas, o desenho delas pela blusa. Quase sem peitos. De pé, era mulher, deitada, não se sabia.
Um pescoço looongo, será que um dia chegaríamos até a cabeça???
Na cabeça, uma cara de enfado. Queria dormir logo.
Entre os papeis salpicados com pensamentos, lagrimas e poesia, encontrei um desenho, desbotado pelo tempo que passou, levando apenas aquilo que quis pra si e deixando em meu rosto suas marcas cada vez mais sulcadas.
Entre as tantas cartas de amor jamais entregues, você permaneceu escondida, como o fez no sorriso de meu rosto e no brilho dos meus olhos, estes te procuraram por tanto tempo em vão, e ainda procuram em vão.
Entre os rascunhos amarrotados, já abandonados entre tantas coisas que passaram, e que não deveriam jamais ter partido, relembrei de seus sorrisos, e por um ínfimo tempo consegui encontrar onde o meu havia se perdido.
Entre a tinta envelhecida que se embrenhara outrora nestas folhas, encontrei uma parte de mim que há muito havia perdido, mas hoje a encontrei em um rabisco, no que era para ser o teu retrato.
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